Luzes Fluorescentes e Oito Horas de Escuridão
O zumbido contínuo do balcão refrigerado era o único som capaz de quebrar o silêncio pesado da Rodovia dos Bandeirantes às três da manhã. Lucas limpava o balcão de fórmica da conveniência pela terceira vez, assistindo ao vapor da própria respiração se condensar contra a porta de vidro fosca. A lâmpada fluorescente do teto oscilava com um estalo metálico, projetando sombras esticadas sobre os corredores atulhados de salgadinhos e prateleiras de bebidas. Era seu quinto dia no turno da madrugada e a instrução dada pelo gerente fora categórica: entre meia-noite e cinco da manhã, a porta fica trancada e as vendas ocorrem apenas pela fresta blindada. Se alguém bater no vidro principal, não abra, não olhe nos olhos e jamais responda ao nome que falarem.
Lucas achara o aviso um exagero burocrático de quem temia assaltos, mas a sensação de isolamento na beira do asfalto transformava cada som em ameaça. A campainha da porta de vidro tocou repentinamente — um som agudo e mecânico que só deveria disparar quando a porta deslizava nos trilhos. No entanto, a porta continuava trancada com o fecho magnético e a corrente. Ele ergueu os olhos do pano úmido. Do outro lado do vidro, sob a iluminação amarela do posto, havia uma figura parada. Usava um casaco de sarja encardido com a gola erguida até o queixo e um chapéu inclinado para a frente.
— A fresta de atendimento fica ao lado — disse Lucas pelo intercomunicador chiado, apertando o botão do caixa. A figura não se moveu em direção à janela blindada. Em vez disso, deu um passo lento, colando a testa contra o vidro temperado da porta principal. A iluminação revelou seu rosto: a pele era cinzenta e esticada sobre as maçãs do rosto como couro ressecado, sem qualquer expressão. O que mais perturbou Lucas foi ver que os olhos daquela coisa estavam completamente abertos, fixos e sem piscar uma única vez. As pálpebras pareciam ter sido paralisadas ou cortadas.
O homem ergueu a mão e bateu na porta. Não foi uma batida comum, mas um som oco de garras rígidas contra o vidro. Três batidas espaçadas. Pelo intercomunicador, sem que a boca da figura se movesse, veio uma voz gutural e distorcida: — Lucas… abra a geladeira de trás. Eles estão com sede.
O Estoque Que Não Tem Fim
O sangue de Lucas gelou. Ele nunca dissera seu nome àquele homem, nem usava crachá na jaqueta. O homem do lado de fora começou a pressionar o corpo contra o vidro com força descomunal, fazendo a armação de alumínio ranger para dentro. Lucas recuou de costas, esbarrando na prateleira e derrubando produtos no chão. Ele olhou para a porta dos fundos, mas percebeu que o perigo não vinha apenas da rua.
Dentro da câmara fria, atrás das portas de vidro onde ficavam as fileiras de bebidas, algo começou a se mover. A luz interna dos expositores piscou e apogou, deixando apenas a penumbra da loja. Lucas viu, entre os fardos de latas, contornos de múltiplos corpos amontoados no chão de alumínio. Eram figuras magras, vestidas com uniformes antigos de atendentes do posto, curvadas entre as caixas. Quando a figura do lado de fora bateu novamente no vidro, as coisas dentro do freezer ergueram as cabeças em sincronia, exibindo os mesmos olhos arregalados e imóveis.
Tomado pelo desespero, Lucas correu ao balcão para pegar o telefone fixo, mas o fio fora cortado de ponta a ponta. O intercomunicador na parede voltou a chiar com força, disparando uma gargalhada estática que ecoou pelas paredes da loja. — O turno nunca termina, Lucas — sussurrou a voz arrastada pelos alto-falantes do teto. — A colheita das três da manhã precisa de um novo repositor.
A trava magnética da porta da frente cedeu com um estalo seco. A porta de vidro deslizou lentamente, permitindo que a brisa gelada da madrugada entrasse no recinto, trazendo um odor forte de carne envelhecida e formol. O homem de chapéu deu o primeiro passo para dentro, seus pés descalços deixando marcas de graxa negra no chão limpo. Ao mesmo tempo, as portas transparentes da câmara fria se abriram de par em par, liberando uma névoa gelada. As figuras de uniforme cinza começaram a se arrastar para fora do freezer, estendendo braços atrofiados em sua direção.
Lucas recuou até a parede dos fundos, agarrou um rodo de metal e o ergueu com as mãos trêmulas. Ele fechou os olhos, esperando o impacto da primeira garra em sua pele. No entanto, o som do arrastar de pés parou de repente. O silêncio voltou a tomar conta da loja, quebrado apenas pelo bip do relógio digital acima do caixa. Ele abriu os olhos devagar. O relógio acabara de marcar 05:00 da manhã. A loja estava limpa, a porta da frente encontrava-se trancada e as luzes da câmara fria funcionavam normalmente. O alívio durou apenas até Lucas olhar para o seu próprio reflexo no vidro da geladeira: seu rosto estava pálido, a pele esticada e, por mais que tentasse piscar para aliviar a aridez, suas pálpebras permaneciam completamente paralisadas e abertas sob a iluminação fria.
